A viagem a Marrocos ficou-me, desde sempre, na mente, por diversos motivos.
Sempre houve uma curiosidade por Marrocos e pelo Islamismo. Não por me sentir próxima da religião, mas sim por curiosidade ou por um possível misto de encantamento / estranheza.
Há muito tempo que queria ir a Marrocos e, quando esta viagem foi concretizada, percebei que era, de facto, o que procurava. Toda aquela viagem significou muito para mim e fez-me mudar. Crescer. Ser menos intolerante e indiferente.
Apaixonei-me pelo chamamento dos muezzins e lembro-me dos arrepios que tive enquanto as suas vozes percorriam todo e qualquer canto das cidades que visitei. Recordo-me de correr em direcção a uma mesquista com o intuito de me deliciar ainda mais com o chamamento. É uma voz tão poderosa com tanta vibração que é capaz de me deixar totalmente arrepiada e paralisada. Digo-o com toda a imparcialidade, pois não estou próxima do Islão.
A veneração pelo Rei foi outro aspecto que me deixou inquieta. Sabia lá eu que, em pleno Atlas, escreviam Vive le Roi, em grandes letras! E que gesto bonito que é... Politiquices à parte, e apesar de agora muito se falar do Rei, eu estive lá e não ouvi qualquer pessoa falar mal dele. Pelo contrário.
Ficaram-me muitas imagens na memória e revejo-as quotidianamente. Uma das imagens foi a de um crente, orando a Meca, sobre um pedaço de cartão, no meio do Atlas. O que tem esta imagem de especial? Também eu não consigo explicar, mas garanto que ficou cravada na minha memória.
Foram tantas e vejo-as tantas vezes! As sauaddes apertam e trazem tantas lembranças e momentos bons. Viajar com pessoas especiais tem sempre o seu Q de inesquecível.
A pobreza foi talvez o aspecto que mais me afectou e fez pensar. Viajar por um país pouco desenvolvido, abandonando as grandes cidades e atropelamentos de turistas, também tem as suas fragilidades e o confronto com a pobreza é um deles. Apesar de correr o risco de parecer falsa, devo admitir que a pobreza não me deixou nada indiferente e ainda hoje trago na memória o diálogo que travei com Fátima, uma linda menina de uma aldeia berbere perdida no Atlas que gostaria de vir a ser professora... Concretizar-se-á o seu sonho? Só Allah sabe.
O calor incomparável que penetrava pelos nossos corpos ao som de Rachid Taha enquantos os nossos olhos mergulhavam nas paredes de terracota, deixa-me sonhar e faz-me ambicionar voltar. Assim que a vida o permitir.
E, desta vez, além do coração, levarei lápis, cadernos e canetas para dar a uma qualquer Fátima que corra o risco de ver o seu sonho roubado.
De certo dirá,
Alláh-u-Abhá


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