As pedras da calçada reclamam o frio que as atravessa e denunciam o calor dos passos que as percorrem. Pedras há que se sentem acarinhadas por quem, muito injustamente, nada nem ninguém tem, e entrega o corpo e a alma a um qualquer cobertor e pedaço de cartão, neles procurando o calor do abraço que não têm.
Custa-me passar na cidade e testemunhar a existência de tamanha e tão cruel pobreza.
Trago na mente a imagem do senhor que, hoje de manhã, fazendo do Teatro da Comuna, seu protector, travava uma dura batalha com o cobertor que humildemente tentava fazer frente ao rude vento que soprava por toda a cidade. Trago essa imagem na mente e tenho a certeza que só me esquecerei dela no dia em que não testemunhar a existência de mais nenhum destes cobertores.


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